Depois dos 40, o corpo muda, e o nosso olhar sobre ele também precisa mudar





Por Carla Cavalcante



Chega um momento da vida em que o espelho começa a contar uma história diferente.


Não necessariamente pior. Apenas diferente.


Depois dos 40, mulheres e homens começam a perceber transformações que nem sempre acontecem de uma vez e nem são iguais para todos. O corpo pode responder de outra maneira, o metabolismo pode mudar, preservar massa muscular passa a exigir mais atenção, o sono pode já não ser o mesmo e a disposição pode oscilar. Também podem surgir mudanças na pele, nos cabelos, na composição corporal, na sexualidade e na maneira como nos percebemos.


Para muitas mulheres, essa fase coincide com o climatério, período de transição que antecede e acompanha a menopausa. Alterações hormonais podem trazer irregularidade menstrual, ondas de calor, suor noturno, mudanças no sono e no humor, ressecamento vaginal e outros desconfortos. Algumas mulheres atravessam essa fase com poucos sintomas; para outras, as mudanças podem interferir significativamente na qualidade de vida.


Nos homens, o envelhecimento também traz transformações físicas e hormonais, mas cada organismo tem seu próprio ritmo. Cansaço, alterações na disposição, no desejo sexual ou no desempenho não deveriam ser automaticamente atribuídos à idade ou aos hormônios. Quando algo muda de maneira importante ou persistente, procurar um profissional de saúde é sempre o caminho mais seguro.


Mas esta não é apenas uma conversa sobre hormônios.


É uma conversa sobre como aprendemos a habitar um corpo que está mudando.


Talvez uma das maiores dificuldades de amadurecer esteja justamente na comparação. Olhamos uma fotografia de dez ou quinze anos atrás e queremos encontrar no espelho exatamente aquela pessoa. Comparamos nosso corpo atual com o corpo que tínhamos aos 25 ou aos 30. Comparamos nossa energia, nossa aparência, nossa disposição e até nossa sexualidade.


Só que existe uma pergunta que talvez precisemos fazer: por que continuamos exigindo de nós mesmos que permaneçamos iguais, se passamos todos esses anos vivendo, trabalhando, amando, enfrentando dificuldades, criando histórias e acumulando experiências?


Nosso corpo participou de tudo isso.


Ele também tem uma história.


Reconhecer as mudanças não significa abandonar o cuidado. Muito pelo contrário. Alimentação, atividade física, acompanhamento de saúde, sono e atenção ao bem-estar se tornam ainda mais importantes com o passar dos anos.


Cuidar, porém, é diferente de rejeitar.


Podemos querer melhorar nossa saúde, fortalecer nosso corpo e cuidar da aparência sem transformar cada mudança em uma batalha contra nós mesmos.


Talvez depois dos 40 o cuidado precise vir acompanhado de uma palavra que usamos muito para os outros e, algumas vezes, muito pouco para nós: gentileza.


Gentileza ao perceber que existem dias em que não teremos a mesma energia.


Gentileza diante de um corpo que mudou.


Gentileza ao reconhecer novos limites.


E gentileza para compreender que limite não é necessariamente fraqueza. Muitas vezes, é conhecimento.


Com o amadurecimento, começamos a descobrir o que nos faz bem, o que não queremos mais tolerar e quais lugares, físicos e emocionais, já não fazem sentido para nós.


E essa conversa também precisa chegar aos relacionamentos.


Envelhecer ao lado de alguém significa assistir às transformações dessa pessoa. O corpo do outro também mudará. A aparência mudará. As necessidades poderão mudar. A sexualidade pode atravessar diferentes momentos. A disposição de hoje talvez não seja a mesma de alguns anos atrás.


É justamente aí que carinho, diálogo e respeito se tornam ainda mais importantes.


Comentários constantes sobre peso, comparações com pessoas mais jovens, críticas ao corpo, cobranças relacionadas à aparência ou à sexualidade podem atingir lugares muito sensíveis em alguém que já está tentando compreender as próprias transformações.


Ninguém deveria precisar sentir vergonha do próprio corpo dentro de uma relação que deveria oferecer acolhimento.


Isso não significa que casais não possam conversar sobre saúde, desejo, intimidade ou mudanças.


Devem conversar.


Mas existe uma enorme diferença entre conversar e constranger.


Entre demonstrar preocupação e diminuir.


Entre desejar proximidade e cobrar desempenho.


Entre incentivar cuidado e fazer alguém acreditar que deixou de ser desejável porque envelheceu.


Talvez amadurecer também seja perceber que não precisamos permanecer emocionalmente em lugares onde nossa idade, nosso corpo ou nossas transformações se tornam constantemente motivo de cobrança ou constrangimento.


E isso vale para mulheres e homens.


Ainda existe muita dificuldade para falar sobre essas mudanças. Algumas mulheres atravessam o climatério em silêncio porque sentem vergonha de dizer que estão enfrentando ondas de calor, alterações no sono ou desconfortos na vida sexual. Homens, por sua vez, muitas vezes foram ensinados a esconder vulnerabilidades e podem ter dificuldade de procurar ajuda quando percebem mudanças físicas, emocionais ou sexuais.


Precisamos normalizar essas conversas.


O corpo humano não permanece congelado no tempo.


E talvez exista alguma liberdade em finalmente compreender isso.


Depois dos 40, ainda existe desejo. Existe beleza. Existe sexualidade. Existe descoberta. Existem novos projetos, novas relações e novas maneiras de viver.


Também existem mudanças.


Uma coisa não anula a outra.


Não precisamos olhar para quem fomos com tristeza. Podemos olhar com carinho. Aquela pessoa fez parte da nossa história e nos trouxe até aqui.


Mas talvez o maior exercício dessa fase da vida não seja lutar desesperadamente para continuar sendo quem éramos.


Talvez seja aprender a olhar com carinho para quem estamos nos tornando.


Conhecer esse novo corpo. Cuidar dele. Procurar ajuda quando alguma mudança interfere no bem-estar.


Respeitar seus limites sem deixar de descobrir suas possibilidades.


E oferecer a mesma delicadeza a quem escolheu caminhar ao nosso lado.


Porque amadurecer não deveria significar perder valor.


Deveria significar ganhar história.


E há muita beleza em um corpo que carrega a história de uma vida.


Esta matéria tem caráter informativo e reflexivo e não substitui avaliação ou orientação de profissionais de saúde.

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